Adeus a John Mahoney: o rabugento que encheu a TV de vida

 A notícia veio em uma mensagem lacônica via WhatsApp, enviada pelo meu filho, Arthur: “Morre aos 77 anos o ator John Mahoney”.

Para um ator desconhecido por 90% dos seres humanos (mesmo os cinéfilos), me surpreendi com o tamanho da tristeza que senti ao ler aquilo.

Mahoney, um inglês da litorânea Blackpool, é um dos ídolos que eu carrego tanto como crítico como consumidor de TV.

Durante quase uma década ele faz parte da minha vida, como o adorável rabugento Martin Crane, pai do psiquiatra “Frasier” (Kelsey Grammer), que dava nome à icônica série norte-americana dos anos 90.

Deixe eu explicar. Eu sou do tempo em que, quando a gente amava um seriado, tinha de comprar box de DVDs.

ANTES DA NETFLIX, OS BOXES DE DVD

Cheguei a ter vários boxes de “Frasier” e perdi a conta de quantas vezes assisti a cada um dos episódios.

Mahoney interpretava Martin Crane, um policial viúvo, que, à beira da aposentadoria, é baleado no quadril e se torna eternamente manco e dependente de bengala e fisioterapia (a fisioterapeuta era a adorável atriz britânica Jane Leeves).

Martin é um ranheta de primeiro nível, um sujeito que sempre foi corajoso e  independente, e que só consegue conviver com outros colegas policiais dentro de um bar bebendo cerveja.

No seriado ele teve dois filhos e ambos são tão metidos a sofisticados e tão frescos que nunca conseguiram conviver com o pai (e na verdade tampouco com outras pessoas).

Frasier e o irmão Niles (David Hyde-Pierce) são o suprassumo da pedância –e da diversão.

Seus pratos devem ser servidos à  temperatura e mistura ideal; as mesas dos restaurantes que reservam devem ser as mais importantes; precisam participar dos clubes mais exclusivos; só bebem do que há de mais sofisticado e caro (são viciados em xerez)

São frequentadores e conhecedores profundos (e irritantes) de ópera, amantes de arte moderna e também de decoração; só usam ternos e smokings Armani; são metódicos e cheios de manias e T.O.C.s

Enfim, uns nojentos adoráveis.

A HISTÓRIA

Claro, Frasier é rico porque é um psiquiatra bem-sucedido e se tornou um radialista famoso, como aqueles antigos conselheiros sentimentais das rádios AM.

Já Niles, também psiquiatra, nem é tão rico, mas é casado com Maris, uma bilionária citada em praticamente todos os episódios, mas que jamais apareceu em um único deles.

Maris é uma “entidade” invisível (o que a faz ainda mais engraçada). Spoiler: na verdade Niles nutre nada secretamente uma paixão pela fisioterapeuta do pai, Daphne Moon.

A petulância e pretensão dos irmãos, somadas à rivalidade sanguínea, são de rolar de rir.

E foi justamente essa improvável química entre os irmãos, o pai velho bronco e reclamão e o adorável cachorro Eddie (que morreu em 2006) que fez com que “Frasier” se tornasse uma das séries mais premiadas de todos os tempos.

E que texto: de longe um dos melhores e mais inteligentes já escritos para a TV.

Alguns episódios entraram para a história, inclusive um em que Kelsey Grammer e Hyde-Pierce se revezam virtuosa e de forma real ao piano, cantando em trio com o pai.

PROFUSÃO DE EMMYS

Foram 39 Emmys –sendo cinco anos consecutivos como melhor série de comédia (94-98). 

E quis o destino que, já velho e semi-inválido, Martin tenha sido obrigado a ir morar com o filho Frasier na friorenta e chuvosa Seattle. A crise entre ambos nasce segundos depois de estarem sob o mesmo ambiente. E durará 11 temporadas.

Essa era uma das graças do seriado. Uma comédia extremamente ágil, mas cheia de dramas e reviravoltas. 

“Quando você nasceu”, diz Martin ao filho Frasier num episódio, “(você era tão fresco que) eu cheguei a achar que você tinha sido trocado na maternidade, ou então que não era meu filho. Mas aí nasceu o Niles e toda a dúvida acabou…”

Cabe aqui um adendo: o psiquiatra Frasier é fruto de um “spin off”, um personagem que nasceu em outro seriado, o pioneiro e também genial “Cheers”, no início dos anos 80.

Sim, crianças, existia TV e seriados de ótima qualidade décadas antes da Netflix e dessas coisas que vocês idolatram hoje.

Injustamente, a despeito do incrível personagem que compos, Mahoney –que nasceu como artista de teatro–, nunca ganhou um Emmy, embora tenha sido indicado.

Ao contrário de outras estrelas da TV, também nunca se casou, nem teve filhos ou expôs sua vida publicamente.

Entre outras coisas, saber que ele havia morrido me fez lembrar que perdi uma única e excepcional chance de incomodá-lo e elogiá-lo pessoalmente.

Em 2004, por pura coincidência, o vi sentado sozinho numa mesa de um café no aeroporto de Heathrow, em Londres. Mas me faltou a coragem (ou a falta de noção) do fã doentio para ir até lá abordá-lo.

Curioso mesmo é que uma pessoa desconhecida, e que levou uma vida tão solitária e modesta, tenha preenchido tanto a vida de tantas pessoas mundo afora. Nunca terei como agradecer o quanto ele me fez rir.

John morreu aos 77 anos em Chicago, EUA, vítima de câncer no pulmão, além de outras doenças que o perseguiam havia anos.

Queria deixar este texto póstumo como agradecimento, querido John.

Saiba mais sobre John Mahoney (1940 – 2018)

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Veja trailer em inglês de “Frasier”

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Sobre:

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

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